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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Eva

E assim eu nasci, pronta e perfeita, já cheia de mulher. Não entendi bem o que se passava, mas vi que outro ser, ainda adormecido, mexia com meus instintos. Ele também parecia perfeito, se não fosse o corte no abdome e o semblante dominador. Logo senti uma doce sensação de alegria e paz, como estava previsto. O amor veio logo em seguida, a tudo, mas sobretudo àquele homem que assim adormecido demonstrava fragilidade.
Ao acordar, olhou-me um pouco assustado, mas logo compreendeu o que ocorrera e parecia gostar, apesar de notar um certo ar de decepção no fundo de seus olhos, que mais tarde eu compreenderia, se bem que imaginação de mulher é como um minhocário, mesmo não conhecendo um à época.
A vida transcorria tranquila e entediante naquele tão apaixonante paraíso. Aquele ser que se tornara meu parceiro era, ao mesmo tempo, autoritário (comigo) e submisso (a ELE) e havia um grave problema: eu o amava, talvez não por opção, mas por destino e a cada dia eu me sentia mais perdida naquele mundo tão masculino. Até que eu a conheci, bela e inteligente, tão diferente de tudo que vira até então. Diferente de mim, tinha a pele muito branca e pequenas sardas no rosto e ombros, seios pequenos, longilínea, para os homens poderia parecer “sem atrativos curvilíneos”, mas possuía um semblante dominador e provocante ao mesmo tempo, olhos verdes e cabelos vermelhos, que refletiam a luz do sol. Pela primeira vez de minha existência senti-me feia, como me sentiria muitas vezes depois, mas não fazia ideia naquele momento.
Não sabia de onde ela viera, mas apareceu enquanto eu estava a colher água fresca para meu homem, não sei se foi esta primeira vez apenas uma aparição, mas ela saía da água, e mostrou-se simpática, apesar de seu constante sorriso debochado. Anunciou-se: Lilith.
Eu nunca ouvira falar de outros seres idênticos a mim, muito menos daquele nome, mas senti que havia algo estranho e com um toque de proibição no ar.
Quando ia me apresentar, ela me informou que não havia necessidade, sabia exatamente quem eu era e o meu papel naquele paraíso: obedecer cegamente a Ele e ao meu homem. E que não poderia ousar desafiar a qualquer um dos dois, senão seria como ela, banida do Paraíso.
Achei estranho então o fato de ela estar ali, ao que me esclareceu que agora não tinha motivos para obedecer a ninguém e como fora banida, a acolhida viera prontamente daqueles que tiveram o mesmo destino e com um pouco de sorte e astúcia conseguira poderes que os homens nem sonhavam conhecer tão cedo.
Conversamos durante um longo tempo, na verdade ela falou praticamente o tempo todo, calmamente, sempre com um sorriso dissimulado que eu ainda não conhecia e nem saberia usar. Explicou-me suas desavenças com Ele e o enorme poder que exercia sobre o homem, e também como era genioso e vingativo. Segundo Lilith, qualquer sinal de rebeldia ou afronta era encarado como guerra e isso muito se repetiria por todas as gerações e os homens muito pagariam ainda por seus atos em desacordo com as normas divinas, a começar por meus filhos. No momento não compreendi a dimensão do que ela dizia, até porque ainda não era mãe e não sabia o horror que poderia ser o amor materno, imenso e eterno.
Durante vários dias nos encontramos, sempre sem que Adão soubesse, segundo Lilith, ele teria um acesso de ciúmes e isso não seria boa experiência pra mim, o ciúme de um homem é o pior dos sentimentos que foi inserido propositadamente e que toda a humanidade provaria. Nada fazíamos a não ser conversar, talvez tenha sido o primeiro evento de reuniões filosóficas da história do paraíso. Mas não percebia que aos poucos eu me embriagava com suas palavras, inebriantes e astutas, que foram se enraizando em meu ser, e permaneceriam ali até renascerem em todas as minhas gerações, às vezes com maior expressividade, às vezes mais tímidas. Era um misto de rebeldia, sensualidade, sabedoria, uma verdadeira revolução de pensamentos e sentimentos, que incubados poderiam ser extremamente perigosos.
Gradativamente eu me tornava uma mulher diferente, e isso agradava ao meu homem sob alguns aspectos e muitas vezes causava desavenças domésticas. E foi assim que se criou um espaço vazio entre nós dois, pois diferente de minha relação com Lilith, não conversávamos, até por falta de perspicácia dele, e criou-se um mistério ao meu redor, que ele jamais seria capaz de transpor. E a partir daí comecei a mostrar que algumas normas eram absurdas, como aquela do fruto proibido. Ora, se não era para provarmos, que lá não estivesse! E se era para nos testar o tempo todo, como cobaias, que usasse algo mais criativo. E além de tudo, não havia nada mais tentador do que provar a Sua ira, segundo os próprios ensinamentos de Lilith. É claro que induzi Adão a provar também, ele por si só não teria essa audácia, mas daí a colocar a culpa apenas em mim foi muito cruel, afinal ele não era criança e devia maiores obediências do que eu. E por isso fui condenada, eu e todas as outras mulheres que ainda viriam a nascer, prova do rancor Dele. Adão ganhou um pomo, considerado futuramente até sensual.
Em consequência também fomos expulsos do Paraíso, grande acontecimento histórico, tivemos que aprender a trabalhar, a lutar contra a natureza para sobreviver, o que de todo não foi tão ruim, saímos do marasmo, do tédio, do risco de obesidade, principalmente Adão. Também é óbvio que não foi fácil, pelo contrário, tudo que poderia ser piorado era rigorosamente feito, segundo Sua vontade, afinal tínhamos que aprender a lição e estávamos condenados a ela, por toda a eternidade.
Não encontrei mais a Lilith, me sentia um pouco abandonada naquele infortúnio e sentia falta de nossas conversas, que agora muito me ajudariam a desabafar. Por outro lado, Adão tornou-se um amante melhor, e logo tivemos os dois filhos previstos na história, para cumprimento dos desígnios divinos.
Foi então que descobri como era sofrido o sentimento materno, pela primeira vez senti-me impotente diante dos sentimentos e do destino. Sentir mais dor quando algo é feito aos meus filhos do que feito a mim mesma era incompreensível pra mim. E tive todo o sofrimento que depois viraria história de família, mas que na época não fazia ideia que era mais um castigo e voltado a todas nós, não somente a mim. Tive a depressão pós parto, que foi tratada pelo derramamento de muitas lágrimas solitárias, senti-me horrível com aqueles seios enormes e que além de tudo rachavam na amamentação. Adão afastou-se de mim, o que só reforçou o quanto os homens são fracos e não sabem gerenciar conflitos, mas no momento me fez sentir mais solitária, o que era uma contradição, pois se ali ele permanecesse, minha irritação seria maior diante de sua incompetência paterna. Precisaríamos amargar por longos séculos para que o homem descobrisse a beleza dos cuidados com os filhos.
Foi nessa época que voltei a encontrar Lilith, que da mesma forma de antes, apareceu repentinamente, mostrando-se mais amável que nos primeiros encontros, me compreendia, me escutava e até discordava de alguns posicionamentos meus, mas eram discussões inteligentes, regadas a uma boa bebida que ela levava, e que até hoje não sei o que era. Nesse segundo evento descobri que essas reuniões femininas ainda muito causariam problemas futuros, mas que não estava no momento de pensarmos nisso, era um bom preço pago pela liberdade de expressão, e melhor ainda se cada geração de mulheres descobrisse por si só.
O que eu não sabia era que encontros também ocorriam a Adão, que Lilith tão sedutora confortava, aconchegava e dava toda a compreensão que ele não tinha no lar, encontros regados a sexo e a mesma bebida ofertada a mim. Ironicamente isso não me afetaria na época, se o risco fosse perdê-la também. Mas hoje vejo de maneira diferente. Percebo o quanto fomos ingênuos o tempo todo, e o pior, com prazer, o que torna a ingenuidade amortecida.
Foi a primeira verdadeira traição da história das mulheres. Mas estávamos sujeitas a isso, em nossa carne estava inserida a ira e o ciúme Dele.
Quando a crise passou, mergulhamos no cotidiano doméstico e ela voltou a desaparecer, tanto pra mim quanto para Adão. O dia-a-dia de sustentar dois outros seres, além de nós, nos consumia por inteiros, esquecíamos dos grandes prazeres e alegrávamos com os pequenos corriqueiros. O caminhar lento de uma criança, o tagarelar de outro, a arte de um e a bondade do outro. Apesar de já imaginarmos que algo pior poderia vir, não nos prendemos a isso, pois simplesmente seguíamos o destino, sem discussões do futuro.
Quando a tragédia abateu-se sobre nossa família, primeiro chegou sobre mim, que vivia a gerenciar as brigas internas. Ao contrário do que se sabe, Caim e Abel não eram tranquilos, sempre foram crianças saudáveis, e como tal aprontavam mais que o necessário, para desespero meu.
No entanto o pior de tudo, era saber que apenas cumpríamos ordens, que tinha de ser assim, me sentia manipulada, mesmo tendo saído do Paraíso continuava sob Seu domínio, o que me irritava profundamente. Os dois meninos foram penalizados, um com a morte o outro com o assassinato e apenas para provar o Seu poder, mostrando na verdade uma figura egoísta e ciumenta.
Perdi os dois: um para a morte, o outro para o anonimato.
(Valdira S. Rosa)

domingo, 28 de novembro de 2010

Doces Prazeres

Chovia, disso tinha certeza, uma chuva fina e brilhante, que cobria as folhagens de gotículas. Gostou de passar a mão nas folhas e ver a água cair e sentir a umidade. Não fazia frio, era verão. Ouviu o barulho leve das folhagens, parou para sentir a brisa, seus cabelos infantis balançaram espalhando seu perfume, mas sem que ela tomasse conhecimento disso.
Saíra escondida da casa velha dos avós, enquanto todos se distraíam com assuntos adultos. A princípio foi olhar as flores, não plantadas, mas espontaneamente espalhadas pelo quintal, depois a jabuticabeira que estava florida e depois parara embaixo daquela mangueira imensa.
Ela acreditava que aquela árvore era a bisavó de todas as outras naquele sítio, tão grande e majestosa que brilhava. Gostava do cheiro predominante de terra úmida e folhas velhas que cobriam o chão abaixo dela, e sobretudo gostava de sua companhia segura.
Era uma menina com cerca de seis anos, cheia de sonhos no olhar, os mais mirabolantes e fantasiosos possível: viver no topo daquela mangueira numa casinha de madeira era seu predileto, viajar nas asas de uma pipa que soltava com seu pai, passar o dia brincando de pique ou andar num cavalo alado até as nuvens. Alguns se concretizavam em suas brincadeiras de faz de conta.
Mas muitos ficaram suspensos como o cheiro de milho cozido.
Percebeu que embaixo da mangueira escurecia, mas logo viu que era proposital, para que ninguém a encontrasse ali, e funcionou. Sentiu um pouco de medo, sabia dos espíritos da família que habitavam o sítio, mas logo assumiu a postura de paladino, o graveto virou espada e a folhagem lhe sussurrava segredos e dicas do tesouro escondido.
Até por sua tenra idade, perdeu a noção do tempo e acabou perdendo-se nas doces ilusões da fantasia criada.
Só conseguiu ouvir os pais chamarem, desesperados, depois de um longo tempo. Saiu correndo, antes que seu tesouro fosse descoberto, ouviu a bronca quieta e cabisbaixa, na mente um turbilhão de sonhos para o dia seguinte.
Entraram na cozinha da avó, borbulhava um cheiro de lenha queimada misturado ao cheiro de comida fresca. A avó olhou-a zangada, compartilhando a bronca dos pais. O avô, sentado a um banco rústico de madeira, sorriu-lhe disfarçadamente e em seus olhos viu o mesmo brilho da chuva descendo na mangueira.
Sorriu também e entrou pulando na casa escura, iluminada apenas pelos lampiões.
Valdira S. Rosa

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Viagem

O dia amanhecera brilhante. Não havia sol intenso, mas o céu estava de um azul muito claro e tristonho. As crianças brincavam próximas à porta da cozinha enquanto a mãe preparava a mamadeira rala para o mais novo.
- Mãe, tô com fome! Resmungou uma das crianças.
Ela olhou-o intensamente, seus olhos opacos pararam no rosto ingênuo da criança.
- No trem haverá o que comer.

Eles sorriram, felizes. Ficaram imaginando o trem, a viagem que fariam. Poucas vezes tiveram a oportunidade de ver o trem, entrar, nunca. Pensavam nos banquinhos forrados que sentariam para olhar pela janela.
Enquanto a mãe preparava tudo para a viagem, eles ficaram ali, a contemplar o sonho que estava por vir. Ela colocou tudo cuidadosamente em bolsas de papel e algumas sacolas plásticas.
A caminhada até a estação foi lenta por causa da bagagem, mas animada pelos sonhos. E de todos quem mais os tinha era a mãe. Ela olhava calmamente o horizonte, cada filho, o céu, as trouxas e sorria, não um sorriso amargo, mas esperançoso. Em nenhum momento voltou-se para trás. Levava o filho menor no colo, que deveria ter um ano e na frente iam os outros: o mais velho, de uns dez anos, a menina de cinco e outro de três.
Finalmente chegaram à estação. Estava cheia. Eles gostaram disso. Mais gente para assistir a viagem. Há tanto tempo que esperavam por ela. A mãe falara nela todos os dias nas últimas semanas e segundo ela seria maravilhosa. Eles teriam o que comer, roupas, veriam pessoas queridas, brinquedos. E sua certeza era tamanha que eles já conseguiam ver tudo.
Pararam no meio da estação, atraindo sempre olhares curiosos. Colocaram suas bolsas no chão. Ela deixou o pequeno no colo do mais velho e mandou a menina segurar a mão do outro.
- Mãe, você vai comprar os bilhetes? O mais velho perguntou-lhe curioso.
- Sim. Cuide bem deles. Não os deixe vir atrás de mim.
Logo eles se distraíram com tanto o que olhar. Ela foi, caminhando incerta em direção ao guichê. Olhou de longe, afastou-se e foi ao encontro do trem. Parecia já pisar em nuvens. Olhou ainda uma vez para trás, viu que eles sorriam. Andou mais rápido. O trem não costuma se atrasar. Pisava firme, reta. O som do trem abafou o grito. Sentiu que flutuava. Viu os filhos sorrindo ainda. Viu luzes, pessoas, brancura...

- Como aconteceu?
- Não sei. Não deu tempo de parar. Ela viu o trem. - O desespero tomava conta do maquinista.
- Acho que eles são filhos dela...
Apontavam e olhavam as quatro crianças sorridentes no meio da estação.
- Onde está sua mãe?
- Ela já vem, foi comprar as passagens para nossa viagem.

Valdira S. Rosa.

Metamorfose

Adormecendo para a vida quase estava quando, de repente, ouvi que o mar bate mais forte do que eu via, que a lua cheia reflete mais em meus olhos, vi no espelho uma aura que antes não via. Percebo então que a natureza foi feita para quem sabe pintar a vida.
Sinto que alguém tocou a rosa do meu poço e fez dela a maior razão de existir. Aspirou seu perfume doce e sentiu nas pétalas o gosto do suave entardecer.
O que foi seguido, jamais nenhum poeta explicou e nunca explicará, pois isso tiraria toda a magia. Gostamos exatamente do desconhecido, este nos traz emoção e vida, a vida exata que cada um tem em sua rosa.
Às vezes passamos nesse estágio de existência sem nunca encontrarmos nossa verdadeira rosa, seja ela clara como o verão ou obscura como a penumbra dos amantes.

Valdira S. Rosa

domingo, 18 de julho de 2010

Clima

O ar ficou seco
rasgou a noite
e se infiltrou neste quarto.
As flores murcharam
minha pele trincou
sobrou apenas o calor das lágrimas
que rolam até secar.
A noite secou
escureceu minha alma
tornou-se infinda
findou a alegria do olhar
apagou o frescor dos lábios
abriu a ferida do dia.
O dia desceu
leve, sorrateiro, entrou
permaneceu quieto a um canto
escutou as batidas do meu peito.
O sol brilhou sem gosto, fosco
a luz que entrou era esbranquiçada
e apagou o charme da noite,
que se despediu alvoroçada.
Os pássaros cantavam em doces promessas
senti o cheiro da terra
as primeiras gotas de chuva chegaram
lânguidas, e as flores sorriram levemente
volto a sentir a pelo do rosto.

Valdira S. Rosa

Frio na Chapada


Julho na Chapada, como sempre uma experiência muito boa, diferente. Entretanto agora mostrou-se melancólica. Faltou o frescor da primeira vez, a ânsia por conhecer, além de pessoalmente ter sido ainda pior. Sinto o tempo correr não mais entre os dedos, mas nos meus cabelos e face. Isso me lembrou aquele poema da Cecília, onde ficou perdida a minha face? A tristeza veio de enxurrada, lavando a paz merecida das férias, o peito apertado e a alma encolhida, o medo dominou todos os poros, não sou eu, essa estranha dominou meus dias e agora a noite é mais fria e mais escura.
O sol que aquece não é suficiente para transpor a frescura que envolve e fere. Preciso de flores, é isso, um pouco de rosas, margaridas e tulipas, um pouco de naturais alegrias para a vida que se mostra artificial.

Valdira S. Rosa

segunda-feira, 5 de julho de 2010

OCASO

Desci a rua, firme, como se subisse. Não voltei os olhos para a casa, mas sabia que outros olhos lá estavam. Senti remorso? Talvez não. Mas saudades sim, daquelas que conseguimos apertar entre os dedos. Aliás, acho que a saudade já estava presente antes da saída. Não saudade dela ou de meus filhos, mas do amor extinto, da vida em comum que murchara. Caminhei bastante, meio sem direção, ou na direção certa (isso depende de quem sente). Então eu olhei pra trás e vi a nossa casa, não a concreta, mas a de meus olhos: era azul, intensamente azul, tinha dentro dela apenas sombras, as nossas sombras sanguíneas. Por mais que eu piscasse, ela não saía de meu olhar; virei-me e continuei andando.
Andei até cansar, cansar de tudo. Era um cansaço que latejava aqui dentro, bem na alma. Pensei em sentar. Olhei a minha volta. Foi aí que percebi um campo deserto, havia apenas um cavalo, mas este nem tomou conhecimento de minha presença. Sentei-me no chão, era uma grama úmida e macia, o alívio foi imediato. Tirei das costas o peso da mochila. Nossa! O vento bateu em meu corpo como nunca batera antes. Só assim, sentado naquela amplidão, pude ver que o céu também pode ser lilás, coisa que nunca tinha visto. Fixei um olhar brilhante e infantil de quem vê realmente, sem nenhum pudor e avistei a primeira estrela que surgia, no início tênue e depois abusada... Ela aparecia como se fosse a única do universo e logo era apenas mais um pontinho iluminado no turbilhão de seu céu. Notei que algo crescia dentro de mim, não forte como qualquer sentimento, mas calmo, afável. Brotava como brotam as sementes, ingênuas. Não sufocava, inundava e preenchia todos os meus sentidos. Até que respirei e lá estava ela! A liberdade, tantas vezes desejada, outras tantas motivo de guerras e sempre insubstituível. Alguns fingem ter, outros a têm mas não sentem e a maioria deseja como o mar deseja o céu, que só se unem visualmente no horizonte. Sempre me incluí neste último grupo e jamais imaginei poder senti-la tão presente em minha alma.
Dei um grito estridente de dentro do meu íntimo, mas somente eu mesmo ouvi e isto me satisfez.
Olhei novamente a minha volta e vi que o cavalo olhava-me. Será que me ouvira?... Mas ele certamente não compreendera ou pelo menos fingiu para não me encabular. Levantei de um pulo, pus a mochila nas costas, tão leve estava! Saí andando sobre sonhos lilases. Avistei pela última vez o céu, que agora era apenas uma estrela.


Valdira S. Rosa