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domingo, 9 de julho de 2017

Apelo

Não, não quero beijos castos

Na castidade de seus sentimentos

Não quero olhar complacente, nem carinhos doces.

Quero mais beijos ardentes, abraços de excitação,

Olhar sedutor, alongado, sorriso dissimulado de paixão.

Não, não quero mais palavras não ditas, conversas truncadas.

Quero mais xingamentos, brigas, explosões de sentimentos.

Não quero mais fingir civilização, cortesia.

Quero mais falas em paixão, estourando das faces,

bocas ríspidas, amantes, sem timidez.

Não quero mais passeios sociais, tímidos e complacentes

Quero mais noites de lua cheia, ou sem lua,

frio da noite, quente de verão

Sentir o corpo suado, bocas quentes, olhares cúmplices,

cabeça a rodar.

Perder os sentidos, a razão,

a decência.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

VENTO



Vivia entre o céu e o mar, achava-se concha, pedra, areia talvez.
Sentia que era pequena e rodopiava nas ondas e vagava entre estrelas.
Sonhava alto, longo e livre,
ia de um extremo a outro num pé só.
Seus olhos eram puro brilho,
refletiam as estrelas no mar.
E bêbada de sonhos, se jogava no céu.
Se perdia no abismo do março
e se encontrava no vazio entre os dois.
A cabeleira solta, a pele ardente e o riso frouxo.
Os olhos perdidos, os braços abertos e os pés dançando.
Era uma confusa dança de amor, mas livre, e leve, e pura.

Valdira S. Rosa

Desejos

Ela queria o mar, o mais denso mar
queria a leveza tênue do toque, o sopro na nuca e o roçar de lábios
sentia que a firmeza de dedos era a sustentação de seu prazer
e o corpo arfante brilhava.

Ela queria a lua, a mais suave das noites
queria o riso breve de dentes leves
os lábios quentes firmemente pousados
e o olhar dissimulado de uma janela entreaberta.

Ela queria o sol, o mais morno sol de outono
queria o quente roçar de pernas nuas
a textura suave de pelos eriçados
não mais sentia os impulsos, apenas os soluços,
frescor
calor
torpor
 

domingo, 30 de setembro de 2012

A Outra


Sempre a observava com paixão. Sabia de sua vida mais íntima, conhecia seus hábitos. Decorara os dias que recebia flores, toda semana, rosas exuberantes e delicadas flores do campo. Sabia que não eram enviadas sempre pela mesma pessoa, estilos diferentes, floriculturas diferentes e especialmente, recepção diferente. As rosas iam para um vaso de porcelana na sala, e ali reinavam por dias. As singelas flores eram colocadas num vaso antigo e ficavam em seu quarto por um dia apenas, mas estas eram o tempo todo enamoradas.
Conhecia sua bebida predileta, vodca, e sempre a bebia sozinha, exceto às quartas-feiras, que além de acompanhada, a roupa era deslumbrante, sensual, a noite era previsível, pela manhã acordava tarde, lânguida, e ia caminhar.
Cerveja era apreciada aos sábados, com amigos, casa cheia, música boa e alta, dançavam, comiam. E aos domingos era convidada para uma nova peça de teatro que estava passando na cidade, ou um filme recém-lançado, às vezes um show de rock, e a preparação era digna de um espetáculo, desde a maquiagem à escolha do lingerie.
Sabia quando a outra era convidada para um motel. Vestia-se com primor, porém mais ousada, deixava de usar calcinhas, ou usava alguma especifica para o momento. Perfumava-se mais, caprichava nos hidratantes, por horas.
Quando percebia tais rituais, alegrava-se pela outra e algo dentro de si mesma ia murchando cada dia mais. Olhava-se, com seu vestido leve e simples, sentia a pele arrepiar-se, passava as mãos pelos seios ainda bonitos. Mas não ganhava flores, não as recebia e nem as comprava.
Às vezes comprava ingressos para um espetáculo que adoraria ir, mas os esquecia em alguma gaveta e depois os esquecia da vida e esquecia-se de si, vivia a outra.
Deslumbrava-se com os momentos de observação, ali vivia intensamente, presa à sua janela e à janela da outra, transparente, nua.
Gostava das noites tórridas que desfrutava em contemplação, gelada, fria, encolhida no canto da sala. E mais do que sentia o sabor das bebidas, ficava tonta, leve, com seus efeitos.
Era também marcante o dia da feira, ia comprar verduras e frutas frescas, enquanto acompanhava a outra, comprando, com frescor, frutas exóticas e encantando o ambiente.
Chegou a ir a um motel distante da cidade, um dos mais luxuosos, sozinha, aproveitou o banho na banheira, secou seus cabelos, deitou-se na imensa cama. Mas a melhor sensação foi encostar-se à parede e sentir a presença da outra, do outro lado, em prazer descomedido. Saiu feliz.
Outra vez comprou bebidas, arrumou-as em seu bar, vislumbrou a beleza de garrafas tão distintas ao seu alcance... Nunca bebeu, nunca amou, nunca enlouqueceu.
Então, numa manhã, viu o corpo da outra, estendido, frio, branco, imóvel. Foram-se os prazeres, os amigos, os amantes. Fora-se a vida. Fora-se o amor. Sentiu-se ir também, olhou as mãos, estavam manchadas de sangue, secas, duras.
Tombou para um lado e dormiu. As sirenes continuavam a iluminar tudo, e o som era cada vez mais distante.

27 de Setembro de 2012
Valdira S. Rosa

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

LUANA



Seu primeiro livro de histórias foi “A poesia é uma pulga”, da Sylvia Orthoff, que ouvia no balanço da rede e repetia as últimas sílabas, que logo passou a repetir palavras, frases, até ter decorado inteiro e mais tarde ler sozinha. Mas nunca abandonou o gosto por ouvir histórias. Se ouvia uma num dia e depois pedia para repetir em outro, nunca se poderia alterar nada, pois se recordava de todos os detalhes (e muitas vezes nós não!), e assim surgiu o lobo bonzinho em sua vida (e até hoje gosta muito deles!). Assim como para fazê-la dormir não poderíamos cantar músicas conhecidas suas, pois cantarolava junto e não adormecia, essas também tinham que ser inventadas, ou alteradas.
Os livros passaram a ser muitos, O Pequeno Príncipe, Maria Vai com as Outras, Luana Adolescente Lua Crescente, Marcelo Marmelo Martelo, Guardachuvando Doideiras, Vovó Viaja e não sai de casa, que passaram a acompanhá-la ao banheiro e lá passava longos momentos de leitura no “troninho” e acabou virando vício, pelos livros e por ir ao banheiro com eles. E quando estávamos em casa de parentes e amigos ela pedia: “tem um livro, revista, gibi, alguma coisa para eu ler?” já sabíamos que queria ir ao banheiro...
Mas os lia em outros lugares também, e reinventava-os também. Logo passou a criar suas próprias histórias, mesmo antes de ser alfabetizada. O encantamento pelos livros era visível em seus olhos, e essa paixão depois foi estendida aos filmes e música. Muito nova já cantava “O Lobo Bobo”, e “Garota de Ipanema”, depois Chico Buarque, mais tarde Engenheiros do Hawai. Um dia descobriu o rock, logo em seguida o hard rock e apaixonou-se pelos anos 70 e 80, fez um corte pigmaleão nos cabelos e cada dia buscava novas descobertas. Conheceu Raul, Secos e Molhados, Ultraje a Rigor, Janes e não parou mais... Foi às nuvens com o vinil.
Os livros continuam iluminando seus dias, em qualquer lugar, esperando o ônibus, o dentista, a comida do restaurante, com os fones nos ouvidos. É uma contadora de histórias, sonhos, ilusões, reinventa seus dias e o de todos nós que estamos a sua volta. Os filmes são em cascata, quer ser cineasta, mas para mim continua a mesma menininha sonhadora de sempre, e será assim para sempre, por toda a eternidade.

Valdira S. Rosa

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Feiticeira

Murmurava algumas palavras incompreensíveis quando a conheci, não sei bem com quem ou o que falava, ou se era consigo mesma, era muito baixo, suave, belo. Tinha os olhos grandes, levemente rasgados nas laterais, com cílios longos e infinitamente finos, negros, sobrancelhas grossas, precisas, que pareciam desenhadas a dedo, pequeno nariz arrebitado acima de lábios pequenos e finos, mas bem rosados, que pareciam se abrir num cínico sorriso, mas sem sorrir. A pele era morena, naturalmente queimada pelo sol, e os cabelos castanhos avermelhados, desalinhados, ondulados, cobriam parte do rosto. Era uma figura estranhamente linda.
Quando a encontrei, estava no pequeno jardim de minha casa, sentada numa pedra, e distraída murmurava, como já relatei. Não percebeu logo minha presença, ou não demonstrou perceber. Vestia uma longa saia florida e uma túnica branca, deixando a mostra, displicentemente, seus seios volumosos. Perguntei-lhe o que desejava e se poderia ajudá-la de alguma forma. Foi assim que encarou-me firmemente, e senti como se a vida passasse em seus olhos, explicou-me que estava apenas distraída em meu jardim, parara por acha-lo encantador com tantas flores silvestres, diferente dos outros, que sempre exibiam flores exóticas e exuberantes. Percebi então que o jardim ganhara um colorido diferente do que já vira, parecia iluminado artificialmente, suas flores eram realmente delicadas, modestas, mas encantadoras, e agora eram muitas!
Acho que ela percebeu minha admiração, e comentou que isso era normal, as pessoas não se atentavam ao próprio jardim. E claro, percebeu também meu encantamento por ela, pois sorriu timidamente, levantou-se, disfarçou a transparência de sua roupa com os braços. Perguntei se não era daquele lugar, pois nunca a vira por ali, apesar de também estar há tão pouco tempo, disse-me que viera apenas visitar seus pais, que moravam na última rua da quadra, uma casa humilde e branca, com um jardim de margaridas. E realmente eu já vira aquela casa, pois chamava atenção de todos, por destoar da exuberância das outras ao redor e no entanto mostrar-se tão imponente com suas paredes antigas e grotescas, com cortinas leves, rendadas, que sempre pareciam nos vigiar. Já ouvira inclusive alguns moradores falarem que os donos daquela casa eram estranhos, alguns tentaram comprá-la oferecendo pequenas fortunas, e eles nunca aceitaram, diferentes dos antigos vizinhos. Vi então que ela me olhava, meio que curiosa com meus pensamentos, e me perguntou de onde viera. Expliquei-lhe que morava na capital, lugar muito tumultuado para um jovem pintor, e que encontrara aquela casa simples, deixada por meus avós, e resolvera mudar-me, alterando radicalmente meu ritmo de vida. Não percebi logo, mas em instantes estava relatando toda a minha vida, em detalhes, e com prazer, como jamais fizera com pessoas conhecidas, e muito menos estranhas. Ela parecia se deliciar, o que tornava tudo mais encantador, mas não deixou transparecer julgamentos ou qualquer sinal de querer encerrar a conversa. O convite para que entrasse surgiu naturalmente, e logo estávamos sentados à mesa da cozinha, tomando café amargo e falando sobre arte. Quis ver meus trabalhos, mesmo os inacabados, fez comentários sinceros e displicentes. Pude admirá-la melhor, o que achei bom. Suas mãos eram pequenas, com unhas curtas, pareciam roídas. Era pequena, mas não menos imponente, tinha a sensação de que sua presença preenchia todo o ambiente, assim como seu cheiro, que não era doce, nem forte, mas inebriante, como de flores silvestres.
As horas passaram sem que percebesse, logo o sol já se fora e as primeiras luzes da cidade começaram a se acender. Pensei em acender as luzes da casa, mas achei que isso talvez desfizesse o encantamento do momento. Então resolvi acender apenas uma luminária do canto do ateliê. Foi o suficiente para ver que os olhos dela brilhavam muito, repousados sobre meu rosto. Logo voltamos a falar das pinturas, de meus rabiscos, e vi que até aquele momento não sabia praticamente nada sobre ela, aquela criatura tão feminina e linda. Comentei isso com ela, que apenas sorriu e disse que não haveria necessidade, pois nada tinha de encantador para me contar, como a arte. E vi seus lábios abrirem num leve sorriso maroto, como de quem fizera algo terrível, mas que ninguém teria coragem de punir.
O abraço foi, diferente de tudo até então, forte e sufocante, como de amantes que há muito tempo não se veem. Senti meu peito apertado, e sabia que nunca mais conseguiria me afastar daquela mulher. Senti sua boca úmida encostar em meus lábios, e os seios entumescidos encostarem em meu peito. Agarrei-a com força, como se fosse me escapar. Por muito tempo apenas nos beijamos, de todas as formas possíveis. Senti cada linha de seu rosto em meus lábios, sua pele com gosto de mar e lágrimas. Beijei seu pescoço, e aos poucos fui beijando seu corpo, que ela mesma ia desnudando. Senti os seios em meios lábios, macios, quentes, que me acenderam completamente. O turbilhão de imagens e sentidos que me invadiu foi assustador. Já não fazia mais nada com a razão, apenas sentia, como se vagasse em nuvens de prazer. Rolamos no chão frio sem senti-lo, sentia apenas seu corpo, que me aquecia e deixava incapaz de qualquer outra coisa a não ser sentir prazer.
Logo estávamos nus, enlaçados, como um só, um corpo no outro, sentia cada músculo seu em contado aos meus, e o cheiro me inebriava cada vez mais.
Não sei quanto tempo ficamos assim, perdidos no amor, que não era só carnal, mas me parecia uma imensidão. Também não sei quanto tempo fiquei ali, sozinho, naquela imensidão, agonizando, sentindo uma imensa dor no peito, talvez de saudades ou de prazer.
Quando me encontraram já não havia mais nada a ser feito, o corpo inerte, sem vida. Nos olhos apenas um resquício de prazer e angústia, saudade. Nos quadros, brilhava repetidamente a figura de uma bela mulher, com olhar de feiticeira, num jardim silvestre.

Valdira  Rosa

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Eva

E assim eu nasci, pronta e perfeita, já cheia de mulher. Não entendi bem o que se passava, mas vi que outro ser, ainda adormecido, mexia com meus instintos. Ele também parecia perfeito, se não fosse o corte no abdome e o semblante dominador. Logo senti uma doce sensação de alegria e paz, como estava previsto. O amor veio logo em seguida, a tudo, mas sobretudo àquele homem que assim adormecido demonstrava fragilidade.
Ao acordar, olhou-me um pouco assustado, mas logo compreendeu o que ocorrera e parecia gostar, apesar de notar um certo ar de decepção no fundo de seus olhos, que mais tarde eu compreenderia, se bem que imaginação de mulher é como um minhocário, mesmo não conhecendo um à época.
A vida transcorria tranquila e entediante naquele tão apaixonante paraíso. Aquele ser que se tornara meu parceiro era, ao mesmo tempo, autoritário (comigo) e submisso (a ELE) e havia um grave problema: eu o amava, talvez não por opção, mas por destino e a cada dia eu me sentia mais perdida naquele mundo tão masculino. Até que eu a conheci, bela e inteligente, tão diferente de tudo que vira até então. Diferente de mim, tinha a pele muito branca e pequenas sardas no rosto e ombros, seios pequenos, longilínea, para os homens poderia parecer “sem atrativos curvilíneos”, mas possuía um semblante dominador e provocante ao mesmo tempo, olhos verdes e cabelos vermelhos, que refletiam a luz do sol. Pela primeira vez de minha existência senti-me feia, como me sentiria muitas vezes depois, mas não fazia ideia naquele momento.
Não sabia de onde ela viera, mas apareceu enquanto eu estava a colher água fresca para meu homem, não sei se foi esta primeira vez apenas uma aparição, mas ela saía da água, e mostrou-se simpática, apesar de seu constante sorriso debochado. Anunciou-se: Lilith.
Eu nunca ouvira falar de outros seres idênticos a mim, muito menos daquele nome, mas senti que havia algo estranho e com um toque de proibição no ar.
Quando ia me apresentar, ela me informou que não havia necessidade, sabia exatamente quem eu era e o meu papel naquele paraíso: obedecer cegamente a Ele e ao meu homem. E que não poderia ousar desafiar a qualquer um dos dois, senão seria como ela, banida do Paraíso.
Achei estranho então o fato de ela estar ali, ao que me esclareceu que agora não tinha motivos para obedecer a ninguém e como fora banida, a acolhida viera prontamente daqueles que tiveram o mesmo destino e com um pouco de sorte e astúcia conseguira poderes que os homens nem sonhavam conhecer tão cedo.
Conversamos durante um longo tempo, na verdade ela falou praticamente o tempo todo, calmamente, sempre com um sorriso dissimulado que eu ainda não conhecia e nem saberia usar. Explicou-me suas desavenças com Ele e o enorme poder que exercia sobre o homem, e também como era genioso e vingativo. Segundo Lilith, qualquer sinal de rebeldia ou afronta era encarado como guerra e isso muito se repetiria por todas as gerações e os homens muito pagariam ainda por seus atos em desacordo com as normas divinas, a começar por meus filhos. No momento não compreendi a dimensão do que ela dizia, até porque ainda não era mãe e não sabia o horror que poderia ser o amor materno, imenso e eterno.
Durante vários dias nos encontramos, sempre sem que Adão soubesse, segundo Lilith, ele teria um acesso de ciúmes e isso não seria boa experiência pra mim, o ciúme de um homem é o pior dos sentimentos que foi inserido propositadamente e que toda a humanidade provaria. Nada fazíamos a não ser conversar, talvez tenha sido o primeiro evento de reuniões filosóficas da história do paraíso. Mas não percebia que aos poucos eu me embriagava com suas palavras, inebriantes e astutas, que foram se enraizando em meu ser, e permaneceriam ali até renascerem em todas as minhas gerações, às vezes com maior expressividade, às vezes mais tímidas. Era um misto de rebeldia, sensualidade, sabedoria, uma verdadeira revolução de pensamentos e sentimentos, que incubados poderiam ser extremamente perigosos.
Gradativamente eu me tornava uma mulher diferente, e isso agradava ao meu homem sob alguns aspectos e muitas vezes causava desavenças domésticas. E foi assim que se criou um espaço vazio entre nós dois, pois diferente de minha relação com Lilith, não conversávamos, até por falta de perspicácia dele, e criou-se um mistério ao meu redor, que ele jamais seria capaz de transpor. E a partir daí comecei a mostrar que algumas normas eram absurdas, como aquela do fruto proibido. Ora, se não era para provarmos, que lá não estivesse! E se era para nos testar o tempo todo, como cobaias, que usasse algo mais criativo. E além de tudo, não havia nada mais tentador do que provar a Sua ira, segundo os próprios ensinamentos de Lilith. É claro que induzi Adão a provar também, ele por si só não teria essa audácia, mas daí a colocar a culpa apenas em mim foi muito cruel, afinal ele não era criança e devia maiores obediências do que eu. E por isso fui condenada, eu e todas as outras mulheres que ainda viriam a nascer, prova do rancor Dele. Adão ganhou um pomo, considerado futuramente até sensual.
Em consequência também fomos expulsos do Paraíso, grande acontecimento histórico, tivemos que aprender a trabalhar, a lutar contra a natureza para sobreviver, o que de todo não foi tão ruim, saímos do marasmo, do tédio, do risco de obesidade, principalmente Adão. Também é óbvio que não foi fácil, pelo contrário, tudo que poderia ser piorado era rigorosamente feito, segundo Sua vontade, afinal tínhamos que aprender a lição e estávamos condenados a ela, por toda a eternidade.
Não encontrei mais a Lilith, me sentia um pouco abandonada naquele infortúnio e sentia falta de nossas conversas, que agora muito me ajudariam a desabafar. Por outro lado, Adão tornou-se um amante melhor, e logo tivemos os dois filhos previstos na história, para cumprimento dos desígnios divinos.
Foi então que descobri como era sofrido o sentimento materno, pela primeira vez senti-me impotente diante dos sentimentos e do destino. Sentir mais dor quando algo é feito aos meus filhos do que feito a mim mesma era incompreensível pra mim. E tive todo o sofrimento que depois viraria história de família, mas que na época não fazia ideia que era mais um castigo e voltado a todas nós, não somente a mim. Tive a depressão pós parto, que foi tratada pelo derramamento de muitas lágrimas solitárias, senti-me horrível com aqueles seios enormes e que além de tudo rachavam na amamentação. Adão afastou-se de mim, o que só reforçou o quanto os homens são fracos e não sabem gerenciar conflitos, mas no momento me fez sentir mais solitária, o que era uma contradição, pois se ali ele permanecesse, minha irritação seria maior diante de sua incompetência paterna. Precisaríamos amargar por longos séculos para que o homem descobrisse a beleza dos cuidados com os filhos.
Foi nessa época que voltei a encontrar Lilith, que da mesma forma de antes, apareceu repentinamente, mostrando-se mais amável que nos primeiros encontros, me compreendia, me escutava e até discordava de alguns posicionamentos meus, mas eram discussões inteligentes, regadas a uma boa bebida que ela levava, e que até hoje não sei o que era. Nesse segundo evento descobri que essas reuniões femininas ainda muito causariam problemas futuros, mas que não estava no momento de pensarmos nisso, era um bom preço pago pela liberdade de expressão, e melhor ainda se cada geração de mulheres descobrisse por si só.
O que eu não sabia era que encontros também ocorriam a Adão, que Lilith tão sedutora confortava, aconchegava e dava toda a compreensão que ele não tinha no lar, encontros regados a sexo e a mesma bebida ofertada a mim. Ironicamente isso não me afetaria na época, se o risco fosse perdê-la também. Mas hoje vejo de maneira diferente. Percebo o quanto fomos ingênuos o tempo todo, e o pior, com prazer, o que torna a ingenuidade amortecida.
Foi a primeira verdadeira traição da história das mulheres. Mas estávamos sujeitas a isso, em nossa carne estava inserida a ira e o ciúme Dele.
Quando a crise passou, mergulhamos no cotidiano doméstico e ela voltou a desaparecer, tanto pra mim quanto para Adão. O dia-a-dia de sustentar dois outros seres, além de nós, nos consumia por inteiros, esquecíamos dos grandes prazeres e alegrávamos com os pequenos corriqueiros. O caminhar lento de uma criança, o tagarelar de outro, a arte de um e a bondade do outro. Apesar de já imaginarmos que algo pior poderia vir, não nos prendemos a isso, pois simplesmente seguíamos o destino, sem discussões do futuro.
Quando a tragédia abateu-se sobre nossa família, primeiro chegou sobre mim, que vivia a gerenciar as brigas internas. Ao contrário do que se sabe, Caim e Abel não eram tranquilos, sempre foram crianças saudáveis, e como tal aprontavam mais que o necessário, para desespero meu.
No entanto o pior de tudo, era saber que apenas cumpríamos ordens, que tinha de ser assim, me sentia manipulada, mesmo tendo saído do Paraíso continuava sob Seu domínio, o que me irritava profundamente. Os dois meninos foram penalizados, um com a morte o outro com o assassinato e apenas para provar o Seu poder, mostrando na verdade uma figura egoísta e ciumenta.
Perdi os dois: um para a morte, o outro para o anonimato.
(Valdira S. Rosa)