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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Chama Fugaz


Vem, vem agora, chama fugaz!

Pode vir, estraçalha-me o poço da alma...

E vá, some, enfie-se noutro ser!

Ah! Mas quando for, não deixe apenas cinzas,

Deixe também o tudo na memória,

E o nada em meu corpo...

Valdira S. Rosa

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Foto de Luciano Malanski




Quebra-cabeças

Insistia em dormir, teimava em ficar ali, encolhida pelo frio. Mas as nuvens de pensamentos borbulhavam e insistiam em nublar o quarto escuro. Já era muito tarde, mas não adiantava discutir com as idéias que teimavam e empacavam no meio de sua cama. Virou-se, desconfortável, e abrindo os olhos devagar esperou que a escuridão se abrandasse para levantar.





Sentiu um leve tremor pelo corpo magro quando pôs os pés no chão frio. Cambaleante, para a sala. Até a gata Greta dormia, apenas se mexendo de leve quando se sentou no sofá ao seu lado. Era linda, mas como todos os gatos, orgulhosa demais. Há algum tempo vinha pensando em ter um cão, talvez não se sentisse tão só em noites de insônia...





Quando amanhecia percebeu que cochilara levemente, encolhida no sofá. E a gata mudara-se para a poltrona, pobre animal. Um bom café agora seria sua salvação para suportar mais um dia frio.





Já a caminho de seu destino, viu o que muitos não vêem mais, um sol tímido saindo de seu esconderijo e iluminando de leve o topo dos prédios. Pensou que se estivesse longe da cidade poderia fotografá-lo para tentar imortalizar seu brilho. Sua velha câmera repousava no banco do carona, como um amigo fiel que se dá carona de vez em quando nas amarguras da vida. Desde que decidira pelo tema de sua exposição, sentia-se encantadoramente triste, e este era seu dom, viver infinitamente as idéias a que se propõe defender. Cada dia um novo rumo, novas vidas personificadas em suas próprias vidas. Já visitara a antiga estação de trem, que agora se tornara abrigo de indigentes, estivera também no asilo municipal e naquele que a deixara mais convicta do que fazia, o presídio feminino.





A cada fotografia, uma mazela humana como se arte fosse, e a cada cena uma marca das tristezas alheias se cravava na alma, daí o café, a angústia, a insônia... e o recomeço. Percebia que a cada lugar deixava um pouco de si mesma, um pouco de alegria. Os sorrisos tímidos e envergonhados quando explicava sua intenção. E finalmente o branco no preto do que podia revelar.





Em uma de suas visitas à favela, algumas crianças curiosas a acompanharam todo o tempo, mas uma delas chamou sua atenção pelo olhar desconfiado. E justamente esta não se deixou fotografar. Foi então que decidiu retratar seus pés e mãos, pequenos ainda, mas cansados e tristonhos. A criança achou graça, não que tivesse sorrido, mas era aquele olhar risonho que teria dado um mundo para fotografar.





Hoje seu destino era meio incerto, foi circulando até a periferia, onde já estivera e sem sucesso tentara fazer algumas fotos dos inúmeros pássaros nas gaiolas penduradas nas janelas. Sentia-se aliviada por não ser uma daquelas suas idéias que persistem e não a deixam em paz por dias, dessa vez foi apenas uma vontade sem grandes convicções.





Acabou parando no depósito de lixo municipal. Ficou surpresa com a quantidade de motos, bicicletas, carroças e até alguns carros antigos, estacionados enquanto seus donos faziam a triagem diária. Ao descer do carro com sua câmera percebeu logo uma família que estava alojada num canto, com suas camas de papelão e cobertores ainda com crianças dormindo. Como era muito cedo, havia poucos urubus, no entanto a presença deles era incômoda, assim como a presença de alguns homens, que logo se percebia, lideravam e organizavam os trabalhos.





Não era sua intenção incomodá-los ou interromper suas atividades, mas isto sempre acabava acontecendo, procurava interferir o mínimo possível, isto garantia a espontaneidade das imagens.
Ao final da manhã já havia feito diversas fotos e já conhecia a história de alguns catadores de lixo. A que mais a comoveu foi a de um menino de apenas 15 anos que ali estava para conseguir sustentar sua esposa da mesma idade e o filho de apenas 3 meses. Segundo ele, a criança nascera prematuramente, o que deixara algumas seqüelas respiratórias. Ele era lindo, tinha uma dessas belezas comuns que poucos conseguem enxergar, era altivo e tinha um olhar que não combinava com o rosto ainda infantil. Era com certeza uma bela composição.
A família que se alojara no local não lhe trouxe grandes surpresas, a não ser pelo luxo da TV ligada a uma bateria, que ocupava a melhor posição no acampamento.





Quando já saía do local, um menino bem pequeno para sua idade a interceptou, mostrando uma máquina fotográfica velha que exibia orgulhosamente em seu peito. Sorriu para ela e perguntou: “Posso fazer uma sua também?” Aquilo realmente era uma obra prima. Depois de sorrir para que ele a fotografasse em sua câmera quebrada, ela o imortalizou em uma imagem na qual ele ajeitava o flash...






Durante dias perambulou pela cidade que não dorme, pelos hospitais insones, pelas ruas barulhentas da madrugada e pelo silêncio da solidão de quem vive nelas. Conheceu seres humanos que não mais sabiam o que significava a luz do sorriso e também encontrou outros que inexplicavelmente sorriam para a vida. Descobriu que a beleza do feio a incomodava de tal forma que tentava torná-lo lindo em suas lentes. Uma vida intensa formigava em suas mãos e olhos, vida esquecida por muitos e vivenciada todo o tempo por todos.





Na esperança de encontrar explicações, seus dedos ágeis registravam tudo, o que a deixava cheia de imagens como num imenso quebra-cabeças. Sabia que a maior dificuldade seria montar as pequenas peças para que alguns iluminados conseguissem captar o mundo inquietante que acabara de vivenciar. Sofria a cada montagem, a cada parede repleta... e percebia que tudo era tão diminuto diante do que vira. Por diversas vezes rasgou painéis inteiros, numa raiva incontida de decepção.





Mas um dia tudo se encaixou, seus sentimentos já estavam adormecidos e sua razão retornava aos poucos. Definitivamente não era o que vivenciara, mas era uma metáfora daquilo.

No último dia da exposição, no espaço cultural municipal, recebeu uma visita encantadora. O menino da máquina quebrada entrou bem devagar, de cabeça baixa, percebia-se o medo de ser expulso dali. Mas ele foi em sua direção tão certo que até achou que seus pés não tocavam o chão. Já a sua frente, levantou os olhos sorridentes que só as crianças têm e estendeu a mão com um papel, parecia um envelope. Da mesma forma como entrou, saiu, sem que muitos o percebessem. Ainda ficou um tempo olhando a ausência dele, distraidamente. Então finalmente viu o envelope, estava sujo e amassado. Abriu delicadamente, como se fosse uma jóia.





E lá estava ela, com sua câmera preta sobre a camiseta branca, registradas numa foto, no meio do depósito de lixo, apenas os restos da civilização ao fundo.


Valdira S. Rosa
10/07/2008

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Foto de Ana Rafaela D'Amico


DESTINO

Aquela pequenina espécie humana brincava no quintal já há algum tempo, sob a sombra de um belo cajueiro que insistira em sobreviver naquela rua tão seca. Mas havia uma barreira entre eles. Um muro, de tijolos, cimento, tinta, cerca elétrica... Do lado de dentro, a criança construía um pequeno castelo de areia no quintal extremamente “limpo” de folhas, flores, frutos, sem imaginar que ali antes vivera uma família inteira de palmeiras. Do lado de fora do muro, a árvore brincava com o vento que de leve soprava seus galhos cheios de flores, no chão sua doce sujeira: flores, folhas, frutos.
Na cabeça do menino sobrevivia um sonho, um desejo secreto aos seus pais. No cajueiro sobrevivia a última espécie da rua. A criança ainda não fala perfeitamente, a árvore não foi dotada de tal qualidade. Mas ambos se comunicam, seja pela sombra de um ou pela alegria do outro.
A Tarde, quando o sol finalmente abandona seu turno, menino se recolhe e cajueiro se aquieta. O vento não tem mais o mesmo sabor.
E todos os dias era a mesma cena, como um casamento feliz sem saber.
Com o decorrer dos dias, dos meses, a sombra se deslocava, e o menino se mudava do castelo para um parque de diversões que construíra com gravetos de seu amigo. Nunca teve a intenção de brincar em outro canto da casa, também nunca teve amigo tão fiel.
Quando chovia, se a mãe não estava, brincava de cachoeira, cascata e barquinho. Mas o melhor da festa mesmo era sentir aqueles pingos grossos que eram filtrados por seu enorme companheiro. O cajueiro, nessas ocasiões, parecia mais feliz, poderia até se dizer que sorria, um sorriso discreto e verdadeiro.
Mas o tempo não parou para aqueles dois amigos, passava lento, sem ser sentido, mas implacável o suficiente para construir raízes, cicatrizes.
O menino, que já não era mais tão novo, que não mais via o crescimento diário de um fruto, tornou-se um homem, e como tal foi enviado para outra cidade. Era necessário estudar, formar-se. Seus pequenos sonhos transformaram-se em grandes desilusões. Suas mãos não sentiam mais a terra escorrer entre os dedos com a água das chuvas. E seus pés há muito tempo não sabiam o que era pular amarelinha à sombra de um cajueiro.
Entre um namorico e uma desilusão amorosa, resolveu voltar a sua casa, rever os amigos. Custou a identificar seu lar, pois este não mais havia. No lugar, uma enorme mansão, pintada com cores da moda, tom sobre tom. Na terra que tantas vezes brincara havia agora uma varanda triste, envidraçada. E no lugar do seu velho companheiro da infância morava uma calçada fria, desenhada por um arquiteto que se dizia importante.
Já ia virar-se, não era ali que vivera... quando seu pai o chamou, feliz, mostrado toda a reforma cara. Ele olhou o sorriso do pai, até forçou um sorriso, seus olhos embaçados não queriam mais ver.
Sua visita foi rápida, assim que pôde, retornou aos seus livros. E quando todos achavam que finalmente ele voltaria para sua cidade, (deveria ser um grande Doutor em alguma coisa!) embrenhou-se numa Floresta Nativa, bem distante de sua região, uma floresta que assim como ele, brigava contra o destino que lhe teimavam impor.
Ninguém entendeu... tão bonito rapaz formar-se para viver isolado no mato...
E ele, na primeira chuva, correu para perto de uma enorme árvore e sentiu os pingos grossos deslizarem por seu rosto...

Valdira da Silva Rosa

terça-feira, 9 de outubro de 2007

ESCURIDÃO




Cálida, esgota-se num instante
Tímida, adentra em meus sentidos
Estremeço e vislumbro a escuridão
Sinto o leve borbulhar de estrelas.

Mágica, entorpecente da pele
Bêbeda, confunde meus desejos
Rodopio sobre a turbulência do olhar
Inspiro sua doce embriaguez.

Estratégica, envolve meus olhos
Bélica, fecha todas as minhas saídas
Vislumbro a lua embaçada
Caio em seus braços, rendido.

Única, apaixona-se pelo vento
Prática, abandona-me repentinamente
Louco, giro em minhas vontades
Adormeço no abandono.

Valdira S. Rosa

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O primeiro Pequeno Príncipe

Sentiu as primeiras gotas de chuva sobre sua face ao olhar o céu já escuro. Não sentia mais as pernas, de tamanho cansaço. A blusa embaixo do jaleco estava suada e grudada ao corpo. Sujeira não a incomodava mais, já virara habitual. Deixou sua velha companheira encostada ao poste e sentou-se no meio-fio. Enxugou o rosto numa pequena toalha que trazia no bolso da calça. Odiava aquela cor, mas era necessária, os carros precisavam avistá-la, apesar de ninguém conseguir vê-la, o que era normal, ninguém os via.
Certa vez ficou impressionada com uma mulher que caminhava na calçada, não saiu de seu trabalho para ver o que acontecia. Pois a mulher desviou, desceu da calçada, andou pelo acostamento, reclamou das más condições da estrada, mas não a viu. Era uma dessas madames bem emplumadas, de salto altíssimo e saia justa. O homem que a acompanhava caminhava de cabeça baixa e assim permaneceu, mesmo durante o desvio da mulher.
No início isso a incomodava, agora não mais. Descobriu que até era bom. Quando saía à noite, se arrumava e ninguém a reconhecia como gari, e nem acreditariam que era. Quando colocava o uniforme e o boné, tornava-se invisível, portanto irreconhecível. Até mesmo o encarregado, quando se reunia ao grupo, falava sem olhar para ninguém, como se falasse ao além. Dava as ordens, fazia suas reclamações e saía, sem ao menos um cumprimento.
Alguns moradores os cumprimentavam, mas como quem cumprimenta uma árvore ou um cão. Gratos pela limpeza diária. Mas o interessante mesmo era que as crianças aprendiam a não vê-los também, quando pequenos olhavam nos olhos, sorriam, ofereciam pirulitos e eram puxados por pais apressados, avós apavorados ou babás nervosas, então aprendiam a não vê-los. Já maiores um pouco, olhavam sorrateiramente, ainda deixavam escapar um leve sorriso, mas isso durava pouco. Quando adolescentes se tornavam até perigosos, então ela preferia ficar bem distante mesmo. Era a presença constante do fruto de toda a indiferença social.
O que curtia mesmo em seu trabalho era descobrir lixos diferentes em ruas diferentes, casas diferentes. No centro da cidade, na época em que lá trabalhava, com a presença dos bares noturnos, encontrava muitos maços de cigarros, alguns até com alguns cigarros que seus amigos disputavam. Muitas latas e garrafas perdidas. O pior eram as guimbas de cigarros, tinham um mau cheiro imenso. Na região em que estava agora, uma área de classe alta, o lixo era menos volumoso, até porque antes de seu grupo passar, vinham os garimpeiros do lixo, que às vezes ajudavam e outras vezes atrapalhavam. Já os vira pegar de tudo nos restos dos outros, principalmente comida, roupas e brinquedos. Já encontrara cartas de amor espalhadas por eles, que riram da desgraça amorosa dos outros enquanto provavam um uísque vencido e charutos úmidos. Não se sentia melhor que eles, mas não desfrutava do mesmo prazer, não conseguia revirar os estilhaços da vida de outras pessoas, não que tivesse nojo, isso não ocorria mais, era para ela como uma invasão domiciliar.
Já ouvira alguns colegas de trabalho falando de ter encontrado bebês em sacos, caixas, panos, mas nunca encontrara nem presenciara tal encontro. Achava que isso ocorria com alguns escolhidos. Deveria ser presente de Deus. O máximo que encontrara foi uma ninhada de gatos, lindos, que distribuíra entre as crianças de sua vizinhança e foi chamada de maluca pelos outros. Mas foi uma festa só na sua rua, e em seu coração.
Esticou as pernas e sentiu que a chuva aumentara, viu seus companheiros ao longe, caminhando pesadamente com suas vassouras e pás. Levantou-se e foi devagar, não tinha a intenção de acompanhá-los. Sonho mesmo era continuar seus estudos... Retirou debaixo do braço um livro que encontrara perdido, era tão bonito, apesar de sujo. Alisou-o e apertou contra o peito, escondendo um pouco da chuva. Era um volume comemorativo de “O Pequeno Príncipe”, já havia lido um trecho, mas deixara para terminar a leitura em casa, era um prazer que merecia um lugar melhor e toda a sua atenção... Não sabia explicar porque, mas gostou do desenho daquele menino estranho e infinitamente surreal. Foi caminhando embriagada pela alegria... Não viu o carro, o carro não a viu. Seu corpo tornou-se parte de seu trabalho, com a diferença da doçura de seus sonhos. O vento soprava uma poeira fina sobre todas as coisas da rua.(Valdira da Silva Rosa)

sábado, 8 de setembro de 2007


"Libelo


De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar – e um barco [com o nome da amiga, e uma linha e um anzol pra pescar ?
E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem [senão de suas mãos, uma pro caniço, outra pro queixo, que é para ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça pra puxar tristeza, e um pouco de pensamento pra pensar até se perder no infinito...
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra -- um pedaço [bem verde de terra -- e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim – que um jardim é importante – carregado de [flor de cheirar ?
E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem [senão de suas mãos para mexer a terra e arranhar uns acordes de violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque pra puxar mistério, que casa sem mistério não valor morar...
De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um [amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar -- basta olhar -- um desses que desmereça um pouco da amizade, de um amigo pra paz e pra [briga, um amigo de paz e de bar ?
E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem [senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo, e pra discutir com o amigo e pra servir bebida à vontade ao amigo?
De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma [mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular ? E enquanto pensando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de [um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o destino o carrega em sua onda sem rumo ?
Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher -- as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo ..."
(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007


Luana, minha Lua. Tão crescida, tão linda. Quando bebê, chorava atenção, iluminava o dia... quando menina, doce criança, audaz, um leãozinho se descobrindo. Agora, uma jovem menina, ainda se descobrindo e encantando. A cada dia novas descobertas, sofrimentos e alegrias... é, filha, a vida é assim: sonhos, felicidades e desilusões, lua cheia e lua minguante.